sábado, 16 de fevereiro de 2013

A morte consciente



Além do sono sem sonhos, de que já tratei, existe mais um portal involuntário. Ele se abre, por breves momentos, na hora da nossa morte física. Mesmo que tenhamos perdido todas as outras oportunidades de alcançar a realização espiritual durante a vida, um último portal vai se abrir para nós, imediatamente após o nosso corpo ter morrido.

Existem inúmeros relatos de pessoas que descreveram esse portal como uma luz radiante, depois de regressarem do que é comumente conhecido como experiência de quase-morte. Muitas pessoas falam também de uma sensação de serenidade abençoada e de uma paz profunda. Em O Livro Tibetano dos Mortos[1], ela é descrita como “o esplendor luminoso da luz branca do Vazio”, que seria o “nosso verdadeiro eu”. Esse portal abre-se apenas por breves segundos, e, a menos que você tenha encontrado a dimensão do Não Manifesto durante a vida, provavelmente o deixará escapar. Muitas pessoas carregam uma grande resistência residual, muito medo, um forte apego à experiência sensorial, uma enorme identificação com o mundo manifesto. Então, quando vêem o portal, afastam-se com medo e depois perdem a consciência. Muito do que acontece depois disso é involuntário e automático. Posteriormente, poderá haver um outro ciclo de nascimento e morte. A presença delas não foi ainda forte o bastante para uma imortalidade consciente.

Então atravessar esse portal não significa destruição?

Como em todos os outros portais, a nossa natureza radiante e verdadeira permanece, mas não a personalidade. Em qualquer caso, aquilo que for verdadeiro ou de real valor em nossa personalidade é que vai se revelar através dela, como a nossa verdadeira natureza. Isso nunca se perde. Nada que seja de valor, nada que seja real, jamais será perdido.

A aproximação da morte e a morte em si, a dissolução da forma física, é sempre uma grande oportunidade para uma realização espiritual. Essa oportunidade é tragicamente perdida na maioria das vezes, visto que vivemos em uma cultura que é quase totalmente ignorante com relação à morte, assim como ignora, quase totalmente, qualquer coisa que realmente importe.

Todo portal é um portal da morte, da morte do falso eu. Quando o atravessamos, deixamos de extrair a nossa identidade da nossa forma psicológica, construída pela mente. Percebemos então que a morte é uma ilusão, do mesmo modo que a nossa identificação com a forma era uma ilusão. O fim da ilusão – é isso o que a morte significa. Ela só é dolorosa enquanto permanecemos presos à ilusão.




[1] W. Y. Evans-Wentz. O Livro Tibetano dos Mortos. Pensamento, 2000.
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